Célio Furtado – Engenheiro e professor da Univali celio.furtado@univali.br

Escrevo, na tranquilidade da manhã, ouvindo Bolero de Ravel (1875-1937), diante da proximidade do Natal. Tempo bom, tempo de reflexão e, para alguns, tempo de fazer o “balanço” do ano.

Talvez mais importante do que o próprio balanço, estamos diante de um momento de agradecimento, por termos sobrevivido, após dos dois anos de pandemia, de tanta gente querida que nos deixou, a lembrança dos mortos.

Gente que já se foi e que até pouco tempo enchia de alegria as mesas do Natal, da comida farta, da conversa boa, das lembranças da infância, um tempo colorido dos terrenos baldios e do canto da cigarra. Havia uma certa ordem na sala com o “pinheirinho/árvore do Natal”, as músicas alusivas à data, e as trocas de presente.

Um tempo especial, lembro-me de filmes ou de relatos de professores que, na primeira guerra mundial, os soldados inimigos saíam das trincheiras e brindavam o nascimento do Menino Deus. Após isso, cada qual retornava ao seu posto e o tiroteio recomeçava. Gosto de pensar fatos desconexos, interligá-los e recomeçar uma nova trajetória de discurso, na busca de um texto mais apropriado ao tempo presente.

Sabemos que a filosofia não é uma construção acabada, e, sim um canteiro de obras, tudo por ser feito e que o pensamento não se acaba, não se esgota, não chega a nada. Gosto daquela frase irônica e sempre atual: “a filosofia é a disciplina que, com a qual ou sem a qual, o mundo fica tal e qual”, pois não dá pra negar que “a gente somos inúteis”.

Vivemos na “soberania do inútil”, tocando a vida, respirando, dormindo e acordando, pois “somos pó e ao pó voltaremos”.

Gosto do tempo do Natal, denominada a “festa magna da humanidade”, um clímax, um ápice, no vértice de um morro e, quando chegamos no topo, empurrando a pedra, tal como Sísifo, a pedra escorrega e retornamos ao início, num eterno movimento, tal como as águas da prainha da Ema, onde flutuam as bateiras papa lavagem.

Gosto da música lírica, das vozes, uma nostalgia de alguma Missa que já assisti, pequeno, na Igreja Matriz, com os olhos arregalados vendo a estátua de Moisés. De fato, estamos diante novos ritmos, de uma civilização acelerada, de neuroses coletivas, estafas, estresses, ansiedades, depressão, enfim, uma “sociedade do cansaço”.

Gosto dos presentes de Natal, sapato novo, meias novas, roupa nova saindo do pacote de loja, e, vou todo confiante, até a rua Hercílio Luz, onde os amigos estão, provavelmente para assistir a uma matinê, no Cine Rex, Cine Itajaí, ou quem sabe, no Cine Luz, num triângulo mágico, quase esotérico, porque é um dia especial e, nos meus braços muito gibi, para trocar, um Zorro, dois Tarzan, Cavaleiro Negro, Fantasma e o Buffalo Bill, com menor interesse, Pato Donald e o mundo curioso do Walt Disney.

É Natal, o Barroso não joga, o Salesiano está fechado, pipoca, bala, fila e, teremos o “Gordo e o Magro” para morrer de rir.

Natal, tempo bom, esperança renovada!

Célio Furtado, nascido em 1955/ Professor da Univali/ Formado em Engenharia de Produção na Universidade Federal do Rio de Janeiro/ Mestre Engenharia de Produção/ Coppe/Ufrj/trabalhou no Sebrae Santa Catarina e Rio de Janeiro. Consultor de Empresa/ Comunicador da Rádio Conceição FM 105.9/ celio.furtado@univali.br

NR: Os artigos assinados são de inteira responsabilidade de seus autores

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